No coração da União das Freguesias de Barreiro e Lavradio, entre as ruas estreitas que guardam a memória da proximidade ao Rio Tejo, subsiste um exemplar raro de arquitetura industrial: a Casa do Fumeiro. Situada na Rua Marquês de Pombal, esta estrutura é um testemunho silencioso das práticas ancestrais de conservação de alimentos e da organização urbana da época.

1. Arquitetura e Morfologia

A Casa do Fumeiro distingue-se pela sua tipologia vernacular e funcional. Ao contrário de muitas estruturas industriais da época, esta apresenta uma planta circular e uma volumetria em tronco de cone, quase cilíndrica, que culmina numa cobertura em domo de meia esfera (abobadilha).

Características Principais:

  • Materiais: Construída em alvenaria de pedra e tijolo, com paramentos exteriores rebocados e pintados.
  • Estrutura: As paredes possuem uma espessura considerável de 50 cm, garantindo o isolamento térmico necessário ao processo de defumação.
  • Interior: O espaço interior atinge uma altura máxima de 3,40 m, apresentando uma abóbada de “meia laranja” com vestígios de um respiradouro no topo, essencial para a circulação do fumo.

2. Implantação e Contexto Urbano

A estrutura encontra-se estrategicamente implantada num canto de um pequeno quintal murado. Esta localização, separada da habitação principal, era comum por razões de segurança (risco de incêndio) e higiene (odores fortes).

  • Enquadramento: Situa-se numa zona de planície, próxima da orla ribeirinha. Está adossada a muros altos que a isolam da via pública, protegendo a privacidade e a função do pátio.
  • Vizinhança de Interesse: A Casa do Fumeiro faz parte de um conjunto edificado com forte valor cultural. Na mesma Rua Marquês de Pombal e artérias adjacentes (como a Travessa da Praia), encontram-se diversos edifícios de construção vernacular que compõem a malha histórica do Barreiro.

3. História e Memória Local

Apesar de atualmente se encontrar numa situação de indefinição administrativa (sem registo formal nas Finanças e com proprietário residente no estrangeiro), a memória oral do Barreiro preserva a sua origem.

Curiosidade: Segundo os registos locais, a propriedade pertenceu outrora a um talhante conhecido pela alcunha de “Boca Negra”, figura que utilizaria este fumeiro para a produção e conservação de enchidos, servindo a comunidade local.


Ficha Técnica Resumida

AtributoDetalhes
LocalizaçãoBarreiro, Setúbal (União de Freguesias de Barreiro e Lavradio)
ÉpocaSéc. 19 – construção
EstiloArquitetura Civil / Industrial Vernacular
CoberturaCúpula em abobadilha (meia esfera)
EstadoInserida no Centro Histórico do Barreiro

Este pequeno edifício é mais do que uma curiosidade arquitetónica; é um elo de ligação ao passado operário e comercial da cidade, representando a transição entre as práticas domésticas e as pequenas indústrias que moldaram a identidade do Barreiro à beira-Tejo.

Fonte: Albertina Belo (2002) para o SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico. www.monumentos.gov.pt

texto e fotos José Encarnação