Homenageando e Estilando Mario Zambujal (Histórias do Fim da Rua)

Estes dois últimos convívios com os seus pontuais temas de interesse têm tido para mim a utilidade de rever algumas leituras feitas há muitos anos; uns quinze ou por aí.

Basta procurar na minha mini biblioteca e quase sempre lá encontro o que preciso, como foi o caso recente de António Lobo Antunes e o seu “Explicação dos Pássaros”, e por associação, algo dum dos seus numerosos e eruditos irmãos, Nuno Lobo Antunes e seu “Sinto Muito”.

Situação semelhante agora com Mario Zambujal, com uma busca presenteada com as suas “Historias do Fim da Rua”.

 Em ambos os casos estas atuais leituras foram para mim muito mais profícuas que aquelas primeiras de há muitos anos, não só porque eu próprio amadureci significativamente, como porque estas Obras assumem maior importância quando analisadas num conjunto de todo um universo literário de cada Autor e numa presente atualidade naturalmente diferente das épocas em que cada obra foi concebida individualmente.

 Especificamente quanto a Mario Zambujal, sem que tenha sido um escritor de grande nomeada nem de significativa produção literária (teve outras atividades culturais eventualmente mais distintas e meritórias no jornalismo, no teatro e na televisão), ali estava Ele marcando presença na minha mini biblioteca.

 Detetado um exemplar dum dos seus títulos (Histórias do Fim da Rua), relido com “outros olhos de ler”, descubro e deleito-me com o seu estilo fácil e escorreito, com a sua sátira muito própria, por vezes a roçar o maldizer burlesco, aflorando as fatalidades do nosso quotidiano sem causar sangue, saltitando por entre elas com bem elaboradas mordiscadas mordazes retirando-lhes assim todo o seu eventual fatídico dramatismo, tornando a sua leitura interessante e agradável.

Vou assim, fruto do nosso convívio, ressuscitando o meu/ nosso “Clube dos Poetas Mortos”.

Tendo, pois, em atenção que também tenho uma molécula de poeta, que ainda estou vivinho da silva, senti-me predisposto e incentivado a relembrar alguns episódios da gloriosa história da minha rua natal, de “A Minha Rua Berço”. Então, Homenageando e Estilando Mario Zambujal nas suas “Historias do Fim da Rua”.

A MINHA RUA BERÇO

Tal como tive uma Casa Mãe assim também tive uma Rua Berço… Uma “Rua Berço” por excelência, mas sem que lhe deva chamar pelo seu nome próprio, de batismo da nova era, por demais complicado e deveras pomposo. Quem é que, no seu devido juízo, vai referir-se à sua “Rua Berço” como a rua do Conselheiro Joaquim António de Aguiar, um tal senhor de tão grande importância para alguém como de desconhecido para nós, aqui implantados desde sempre? Nem pensar, quanto mais reconhecer e dizer…

Não só por isso, mas porque a rua é minha por direito de nascença e herança; é minha, é nossa, moradores da sua origem, ganilhagem do meu tempo.

Por uma questão de alguma cedência e por respeito ao título de “Conselheiro” que decerto se pavoneava pelas altas esferas da sociedade aristocrata (ou afins), admitimos usar somente o seu apelido para nos referirmos à nossa rua sempre e apenas em relações externas, no trato com estranhos:

 – Que rua é esta?

 – Vê-se mesmo que é de fora!  a Rua Aguiar gente…

Para os autóctones como nós (fiquei a gostar deste termo desde que ouvi um senhor na televisão a referir-se a alguém que nasceu num certo sitio), quer dizer, a miudagem de pé descalço que calcou a nossa rua durante dezenas de anos, haveria de ser sempre a nossa “Rua Direita”; que curiosamente se estende basicamente em cerca de duas metades complementares: direita, curva (inflexão), direita.

Mas esta designação é a da nossa origem, da primeira metade mais antiga, mais “Camarra”, que vem desde nascente no Largo da Nossa Senhora do Rosário (secular padroeira da comunidade piscatória barreirense), até à inflexão logo após o Largo Casal – esta outra designação popular para o complicado nome de dupla propriedade de “Praça Gago Coutinho e Sacadura Cabral” – Quem conhece, não direi as históricas personagens, mas o egrégio local que concedia espaço e localização ao centenário “Penicheiros”, ao Cine Clube, ao Café Casalense, ao Café do Guilherme, à Drogaria do Artur (estes três últimos já cilindrados pelo rolo esmagador da história)?

Como não considerar esta a minha rua se foi ela que me viu nascer e crescer até à idade

adulta: Rua Berço, Rua Infantário, Rua Escola, Rua Amizade, Rua Futura… Rua onde os seus moradores, todos da mesma básica classe trabalhadora, levavam ao mais alto expoente a relação de vizinhança; os Vizinhos/ Amigos quase Família viviam as emoções uns dos outros, nas alegrias e nas tristezas; dividiam entre si na abundância (muito rara), repartiam o pouco nas necessidades (quase permanentes).

Quase que se partilhavam as casas de vizinhos mais próximos e de maior e mais íntima

convivência; porta aberta sem impedimentos nem cerimónias de relacionamento.

Tendo como base a minha casa n° 82 / 1° dirtº. – Família Singens: Raimundo, Emília, Manecas e eu naturalmente – estou lembrando a vizinhança circundante como que meus parentes: do lado esquerdo a Família Mouzinho – José, Augusta, o filho Vladimiro da minha idade e sua tia ]ú1ia; por baixo, no rés-do-chão, a Família do “Mudo Sapateiro” (nunca soube o seu nome próprio), sua mulher Geménia e numerosa filharada, pois neste mister ele não era nada deficiente; no outro lado a Família do Pedro Pireza e sua bela filha, a Zétinha; mais para a esquerda a Família Chocalhinho, a vizinha Rosa e o filho Zé Manel; em frente, janela a janela, a numerosa Família da Sra. josefina e umas quantas filhas, a Bete, a Lurdes, a Zezinha, etc.; mais ao lado a Família do Sr. Cabrita, a Sra. Jorgina e sua bela filha Aninhas; ainda mais ao lado a Família Calafate, a sua bela filha Lolita; e por aí afora os Amigos Hernâni Camões, o Daniel, o Lourenço, e muitos outros no historial da nossa numerosa e amigável Família de Vizinhos, sem esquecer o popular centro de convívio que a sede do União Futebol Barreirense oferecia, ali mesmo na porta ao lado…

Seus filhos nasciam e cresciam juntos como irmãos de sangue; uma infância em que brincavam em grupo, cometiam em conjunto as mesmas malandrices, jogavam os mesmos jogos de rua, toureavam em grupo os esbirros da GNR que os perseguiam por fazerem da rua a sua segunda casa, experienciavam nesta primeira escola de rua os mesmos princípios básicos de sobrevivência infantil, aprendiam par a par nas mesmas carteiras escolares primarias a sabedoria das letras e dos números, irmanavam-se todos nos mesmos laços de amizade que haviam de perdurar pela vida fora.

Infância ultrapassada e precocemente interrompida seguiam juntos na juventude na intempestiva e quase intransponível chamada ao mundo do trabalho onde aprendiam o oficio à força duns chapadões; assimilavam clandestinamente uma formação sexual algo deturpada e deficiente transmitida oralmente ou por literatura informal, a qual era tentada levar à prática nos primeiros namoricos frequentemente com efeitos desastrosos; acabavam por marchar lado a lado nas obrigatórias incorporações militares, até em comissões de participação de combate nas guerras coloniais; alguns mais ousados enveredavam juntos clandestinamente pela oposição ideológica ao regime opressor da sua época, e pagaram juntos os elevados custos dessas ousadas opções. Assim como viveram e festejaram ombro a ombro a libertação democrática que a sua revoltosa e persistente luta atempadamente alcançou.

Em termos comerciais a nossa rua era um portento para o nível da época, uma verdadeira metrópole comercial; naquele espaço de rua de cerca de duas centenas de metros havia uma enorme aglomeração de lojas de diversas espécies, como mercearias, drogarias, padarias, cafés e tabernas, alfaiatarias, barbearias, livrarias, etc., etc. Ainda hoje me pergunto como é que conseguiam sobreviver dado o tipo de clientela trabalhadora, a viver a base de crédito a prazo, 0 chamado rol. Estava-se sempre em divida, pois, as amortizações esporádicas (semanais ou quinzenais) eram sempre mais curtas que as despesas correntes.

Tentando lembra-me da maioria poderei enumerar as seguintes: Mercearias do Raúl, do Patrício (Lopes Gaio, também drogaria), do Constantino, do Benjamim; drogaria do Artur; padarias do Isaías (a mais importante), e mais duas, uma em frente de minha casa e outra para o lado da Sra. do Rosário; cafés e tabernas, uma série onde destaco o Café Caveira, o Café do Guilherme, a Taberna do Arnaldo; alfaiataria do Rebelo, uma outra mais adiante e uma chapelaria logo à frente da primeira; barbearias umas três ou quatro onde destaco a Barbearia do Alberto e seu cunhado António; a livraria do popular antigo desportista Chico Camara (“ChiCamra” no nosso mais puro vernáculo de rua), e uma outra mais papelaria mesmo na minha frente de que não me lembro o nome.

Os festejos populares eram comemorados ao longo da rua por diversos grupos bairristas em que era notável uma saudável rivalidade competitiva, mas sempre com a nota predominante do divertimento popular; as festas dos santos populares, seus arraiais, suas fogueiras e bailes de rua eram um verdadeiro acontecirnento; as burlescas paródias de carnaval (que ninguém leva a mal) rua fora e casas adentro era urna folia sem precedentes. O Povo vivia em comunhão de luta e divertimento e fazia da sua Rua o seu anfiteatro e respetivo teatro das suas próprias atuações populares.

Esta Rua Aguiar, a minha Rua Direita, esta sim era mesmo uma rua às direitas que merecia um lugar de destaque nas “Historias de Fim de Rua”; “Rua Berço”, Rua Infantário, Rua Escola, Rua Amizade, Rua Futura. . .Rua de Tudo e de Nada duma vida inteira… Rua do Meu Regresso, onde retorno às minhas origens sempre que a saudade me chama…

Texto: Amadeu Singens, abril 2026

fotografias: José Encarnação