A história da Quinta do Braamcamp, situada no Bico do Mexilhoeiro, é um microcosmo da própria evolução económica do Barreiro. O que começou como uma exploração agrícola e moageira sob a égide da aristocracia, transformou-se, no século XIX, num centro nevrálgico da indústria da cortiça, terminando o século XXI como um símbolo de luta pelo património público.

Do Barão de Sobral à Revolução Industrial

A linhagem da propriedade ganha relevo em 1788, quando Geraldo Venceslau Braamcamp de Almeida Castelo Branco recebe a concessão da quinta. Inicialmente dedicada à criação de bichos-da-seda e à moagem — com o Moinho do Braamcamp a tornar-se um dos maiores do estuário do Tejo após a sua ampliação em 1804 — a quinta foi palco de inovação tecnológica, incluindo a construção de um moinho de vento de arquitetura única em 1819.

A transição para a era industrial deu-se com a passagem da propriedade para mãos britânicas (famílias Wheelhouse e Reynolds), ganhando o epíteto de “Quinta dos Ingleses”. Em 1883, Tomás Reynolds já laborava cortiça no local com maquinaria avançada importada de Manchester, marcando o início de um século de domínio deste setor.

O Apogeu e a Queda da Sociedade Nacional de Cortiças

Em 1897, a Sociedade Nacional de Cortiças (SNC) adquiriu a propriedade, consolidando a unidade industrial. Durante décadas, a fábrica foi o motor económico da zona, resistindo a crises e mudanças de gestão. Contudo, o final do século XX trouxe o declínio:

  • O moinho de vento da Quinta da Braamcamp, conhecido como Moinho do Barão do Sobral, foi destruído por um incêndio há várias décadas, embora a data exata não seja consensual em todos os registos públicos. Este era considerado o maior dos moinhos de vento da zona.
  • Anos 70/90: Mudanças sucessivas de sócios e a ascensão de Edmundo Luís Rodrigues Pereira na gestão da agora denominada Esence.
  • 2008: O Tribunal de Comércio de Lisboa declara a insolvência da Esence, sinalizando o fim da produção.

Abandono, Destruição e a Luta pelo Património

Após a falência, a quinta mergulhou num período negro. Entre 2010 e 2011, o património foi saqueado e o que restava dos edifícios históricos — incluindo o palacete e o moinho de maré — foi consumido por incêndios sucessivos.

Perante o cenário de ruína, a Câmara Municipal do Barreiro (CMB) adquiriu a quinta em 2016 por 2,9 milhões de euros, ao banco BCP, visando a fruição pública. Em 2017, o Sítio de Alburrica e do Mexilhoeiro foi classificado como de Interesse Municipal, reconhecendo o seu valor histórico e paisagístico.

O Presente: Entre o Imobiliário e o Uso Público

Recentemente, a Quinta do Braamcamp tornou-se o centro de uma intensa disputa política e cívica. Enquanto o executivo municipal (PS) defendeu, a partir de 2018, a alienação do terreno para projetos de habitação via hasta pública, surgiu o movimento “Braamcamp é de Todos”. Esta plataforma de cidadãos defende a preservação integral do espaço para uso coletivo, sublinhando que a memória da última fábrica de cortiça do Barreiro não deve ser apagada pelo betão, mas sim integrada na identidade futura da cidade.

Texto e Fotos José Encarnação