O núcleo urbano central do Barreiro, vulgarmente conhecido como “Barreiro Velho”, é um testemunho vivo da simbiose entre a geografia fluvial e a necessidade humana de expansão. A sua morfologia atual não é fruto do acaso, mas sim de um crescimento estratificado que revela duas almas urbanas: uma orgânica, voltada para o interior, e outra regular, que abraça a margem do Tejo.
A Génese: O Triângulo do Século XVI
As raízes desta malha urbana mergulham no final do século XVI. O núcleo inicial nasceu de uma lógica de proximidade e funcionalidade, organizando-se em torno de polos de atração que formavam um triângulo estratégico entre os Largos de Santa Cruz, Rompana e da Esperança.
Nesta zona, o traçado é predominantemente orgânico, adaptando-se ao terreno e às necessidades de uma comunidade que vivia, desde cedo, da ligação ao rio e das atividades agrícolas e marítimas. O epicentro desta vivência histórica reside na Praça de Santa Cruz, onde se concentram os marcos da identidade barreirense: a Igreja de Santa Cruz, a Capela da Misericórdia e o edifício da antiga Câmara Municipal.
O Século XVIII e a Disciplina da Margem
Com a chegada do século XVIII, o Barreiro iniciou uma expansão mais disciplinada. A estrutura tornou-se regular e linear, encontrando o seu eixo estruturante na Rua Conselheiro Joaquim Augusto de Aguiar (a antiga Rua de Palhais). Esta via, desenhada em paralelo à linha de água, ditou o ritmo de crescimento da vila.
Durante o século XIX, este eixo consolidou-se. Surgiram novas ruas paralelas e, crucialmente, pequenas travessas perpendiculares que funcionavam como “janelas” para o Tejo, garantindo que o rio estivesse sempre presente no quotidiano visual da população.
A Modernidade e a Expansão Novecentista
O crescimento não parou e, já no século XIX, a Rua Miguel Bombarda (antiga Rua D. Manuel I) impôs-se como um novo eixo de relevância. Diferenciando-se das restantes, projeta-se perpendicularmente ao rio e estende-se em direção à Verderena, servindo hoje como a principal porta de entrada rodoviária para o centro histórico.
Nas extremidades deste corpo urbano, encontramos dois polos de grande peso simbólico e social:
- A Oeste: O Largo de Nossa Senhora do Rosário e a Praça Bento de Jesus Caraça.
- A Este: O Largo Alexandre Herculano, que marca a transição para o universo industrial da antiga CUF/Quimiparque.
Arquitetura e Morfologia Urbana
A estrutura do Barreiro Velho é caracterizada por uma organização de quarteirões onde impera a funcionalidade:
- Lotes e Saguões: Nas zonas de traçado ortogonal, os lotes são quadrangulares; nas zonas mais antigas e irregulares, tornam-se estreitos. Os logradouros traseiros (saguões) são fundamentais, garantindo a entrada de luz solar nas fachadas posteriores.
- Tipologia Habitacional: Predominam edifícios de dois ou mais pisos, mantendo a tradição do “piso térreo comercial”, uma característica típica das cidades portuárias e de serviços.
O Pulmão Verde e o Abrigo do Rio
Numa malha urbana densa, as áreas verdes surgem como refúgios pontuais. O Jardim Luís de Camões, com o seu icónico Coreto, destaca-se frente ao histórico edifício “Os Franceses”. Mais recentemente, a Avenida Bento Gonçalves (conhecida como a Avenida da Praia) veio oferecer uma proteção vital. A sua zona verde, composta por canteiros e árvores, não cumpre apenas uma função estética, mas serve também de barreira natural contra os ventos do Norte que sopram do Tejo.
Conclusão
O centro histórico do Barreiro é mais do que um conjunto de ruas; é um vestígio onde o traçado regular do Iluminismo e a organicidade medieval se cruzam. Preservar este núcleo é manter viva a memória de uma cidade que sempre soube olhar para o rio sem perder o contacto com a terra.
Texto e Fotos: José Encarnação







