Há imagens que capturam não apenas um lugar, mas a alma de uma época. Esta fotografia, captada a partir da Quinta das Canas, no Barreiro, funciona como um posto de observação privilegiado sobre a complexa identidade da Margem Sul. Debruçada sobre o Rio Coina, a vista oferece uma lição viva de história social, onde o idílico e o industrial coexistem na mesma moldura.
O Rio Coina e o Silêncio do Bacalhau
Em primeiro plano, a vegetação e o casario baixo da zona da Bem Saúde transmitem uma serenidade que contrasta com a azáfama de outrora. No espelho de água do Coina, destaca-se a silhueta solitária de uma embarcação da pesca do bacalhau.
Estes navios, de mastros altos e cascos robustos, não eram apenas ferramentas de trabalho; eram símbolos de uma resistência hercúlea. Ver uma destas embarcações em descanso no rio é recordar o pulsar de uma comunidade que, embora ancorada em terra firme, tinha o coração e o sustento no Atlântico Norte.
O Gigante de Fumo na Outra Margem
Se o rio nos fala de tradição e da paciência das marés, o horizonte revela a força bruta da era industrial. Do outro lado da margem, em Paio Pires, a silhueta imponente da Siderurgia Nacional domina a paisagem com as suas chaminés colossais.
Nesta fotografia, o fumo que se eleva das chaminés não é apenas um resíduo; era, na altura, o sinal de vida de um país que se queria moderno. A Siderurgia, o grande produtor de ferro, representa o auge do desenvolvimento industrial da região, moldando não só a linha do horizonte, mas também o destino de milhares de famílias operárias.
Um Património de Contrastes
Este cenário, imortalizado pela lente de José Encarnação, em 1976, resume a essência do Barreiro e dos concelhos vizinhos: uma terra de trabalhadores onde o rio servia de estrada e a indústria de motor.
A imagem revela um equilíbrio fascinante:
- A Base: A terra fértil e as árvores da Quinta das Canas.
- O Meio: O Rio Coina, elemento de ligação e abrigo para a frota bacalhoeira.
- O Topo: O aço e o betão da Siderurgia Nacional, recortados contra um céu carregado.
É um local de encontro entre o passado marítimo e o gigantismo metalúrgico, recordado por quem sabe que a beleza desta região reside, precisamente, nesta identidade operária e marítima, onde o ferro e a água escrevem a mesma história.
Texto e Foto: © José Encarnação

