Igreja de Nossa Senhora do Rosário: O Coração Histórico e Arquitetónico do Barreiro

Situada na União das Freguesias de Barreiro e Lavradio, em pleno distrito de Setúbal, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário ergue-se como um dos mais significativos marcos do património religioso da margem sul do Tejo. Localizada estrategicamente num largo ribeirinho, esta igreja não é apenas um local de culto, mas um livro aberto sobre a história da arquitetura portuguesa entre os séculos XVI e XIX.

Um Mosaico de Estilos: Do Chão ao Pombalino

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário é um exemplar fascinante da evolução estética em Portugal. A sua estrutura base segue o estilo chão vernacular, caracterizado por uma “estética de austeridade” que privilegia a ordem, a proporção e a clareza sobre o ornamento excessivo.

No entanto, a sua história de reconstruções e ampliações — especialmente após o devastador Terramoto de 1755 — conferiu-lhe camadas adicionais de complexidade:

  • Estilo Chão e Maneirismo: Visíveis na sobriedade das fachadas e nos arcos que dividem as capelas da nave, mantendo a tradição nacional de simplicidade estrutural.
  • Barroco Pombalino: Reflexo da reconstrução pós-terramoto, manifesta-se na articulação das janelas sobrepostas às portas e na utilização de materiais mais acessíveis para esconder a pobreza dos recursos da época.
  • Rococó: Encontrado na decoração exuberante da capela-mor e nos detalhes delicados do coro-alto, com as suas volutas e “orelhões” que contrastam com a rigidez das linhas exteriores.

Detalhes Arquitetónicos e Tesouros Interiores

A planta da igreja é longitudinal e irregular, com uma fachada principal orientada a Oeste, flanqueada por duas torres imponentes. A torre Norte destaca-se por albergar um carrilhão de oito sinos (fundido em 1857) e um relógio histórico proveniente do extinto Convento de Palhais.

No interior, o destaque vai para:

  • Capela-Mor: Uma estrutura rica em talha pintada e dourada, com colunas compósitas e figuras aladas que criam um cenário de grande impacto visual.
  • O Órgão de Tubos: Atribuído ao mestre organeiro António Xavier Machado e Cerveira, um dos mais importantes nomes da organaria portuguesa, representando um património musical de valor incalculável.
  • Coro-Alto: Uma varanda de “barriga” guarnecida por balaustrada em madeira pintada e dourada, que demonstra a elegância do período rococó.

Evolução Histórica: De Ermida a Real Irmandade

A história do local remonta a 1531, com a fundação da Ermida de São Roque (mais tarde São Pedro) para pedir proteção contra a peste que assolava Lisboa. O salto para a importância atual ocorreu em 1736, quando a igreja foi entregue à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário.

A relevância da instituição foi tal que, em 1781, a Rainha D. Maria I concedeu-lhe o título de Real Irmandade, tornando-se ela própria a sua Juíza Protectora Perpétua. Esta ligação à coroa sublinhou a importância social e religiosa do Barreiro no contexto regional.

Curiosidade Técnica: O pavimento da igreja, restaurado em 1955, foi construído com uma ligeira inclinação em direção ao altar. Esta solução de engenharia foi desenhada especificamente para prevenir os danos causados pelas marés vivas e enxurradas, dada a proximidade do templo ao rio Tejo.

Importância Patrimonial

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário é um testemunho da resiliência da comunidade barreirense. Sobreviveu a sismos, marés e crises financeiras, adaptando-se a cada época sem perder a sua identidade. A sua conservação é vital, não apenas pela riqueza da sua talha ou pela raridade do seu órgão Cerveira, mas porque representa a continuidade histórica de uma povoação que cresceu em estreita relação com o rio e com a fé.

Apesar de atualmente não possuir uma classificação de proteção oficial (como Monumento Nacional), a sua integração no tecido urbano e a sua história ligada à monarquia e à arte sacra portuguesa tornam-na num ativo cultural indispensável para o distrito de Setúbal.

Fonte: Albertina Belo (2005) para o SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico. www.monumentos.gov.pt

texto e fotos José Encarnação