A fotografia a preto e branco capta um momento de tranquilidade monumental num dos locais mais emblemáticos da história ferroviária portuguesa: a Rotunda das Locomotivas no Barreiro. Com a sua arquitetura em semicírculo e arcadas imponentes, a rotunda servia como o coração operacional onde as máquinas descansavam e eram assistidas. No entanto, a figura central que domina a imagem não é apenas mais uma peça de maquinaria; é a locomotiva “D. Luís”, uma máquina cuja história se entrelaça com o próprio destino de Portugal.
Fabricada em 1862 nas oficinas da prestigiada firma Beyer, Peacock and Company, em Manchester, Inglaterra, a locomotiva foi adquirida pela South Eastern Railway Company of Portugal, empresa que explorou a linha do sul e sueste entre 1864 e 1869. A sua chegada ao país foi envolta em pompa e circunstância, pois o seu propósito inicial era de nobreza: estava afeta ao Comboio Real, um presente de casamento oferecido à Rainha D. Maria Pia aquando do seu enlace com o Rei D. Luís I, em 1861. Durante décadas, as suas linhas elegantes e o seu motor potente transportaram a família real, simbolizando a modernidade e o progresso da monarquia portuguesa.
Contudo, os ventos da mudança sopraram fortes sobre Portugal. Com a Implantação da República em 5 de Outubro de 1910, a sorte da “D. Luís” mudou drasticamente. Despojada do seu estatuto real e do seu nome original — passando a ser conhecida apenas pelo seu número — a locomotiva foi relegada para serviços secundários. O glamour das viagens reais foi substituído pelo trabalho árduo e quotidiano, rebocando comboios operários e de obras no troço entre o Barreiro e Setúbal.
O abandono não foi apenas simbólico, mas também físico. Sem o prestígio de outrora, a manutenção da locomotiva foi negligenciada. O inevitável aconteceu em 1921. Enquanto rebocava um comboio composto por três carruagens e um furgão, um dos tubos da caldeira rebentou em plena viagem. O incidente provocou uma queda súbita na pressão, mas a velha máquina, num último fôlego de resistência, ainda conseguiu completar a sua jornada. Na viagem de regresso, exausta e ferida, conseguiu chegar apenas até à estação do Barreiro-A. Foi necessário chamar outra locomotiva para a rebocar até ao depósito principal.
Aquele foi o fim dos seus serviços regulares. Encostada e esquecida num canto das Oficinas do Barreiro, a outrora orgulhosa locomotiva parecia condenada a ser consumida pela ferrugem e pelo tempo, uma relíquia esquecida de um regime passado.
Mas a história reservava-lhe um último capítulo de glória. Em 1956, Portugal preparava-se para celebrar o primeiro centenário dos caminhos de ferro portugueses. Olhando para o património histórico, lembrou-se da velha locomotiva esquecida no Barreiro. Numa operação de restauro meticulosa, a “D. Luís” foi devolvida ao seu esplendor original.
A sua reentrada em cena não poderia ter sido mais triunfal. A locomotiva restaurada esteve presente nas cerimónias do centenário da CP, que coincidiram com um marco histórico oposto: a inauguração da eletrificação do primeiro troço da Linha do Norte. Ali, lado a lado com as novas e modernas locomotivas elétricas, a “D. Luís” erguia-se não apenas como uma máquina do passado, mas como um testemunho vivo da evolução, persistência e da rica história industrial e social do Barreiro e de Portugal.
Esta fotografia, portanto, é mais do que uma simples imagem técnica; é o retrato de uma sobrevivente que conheceu os palácios e o esquecimento, e que hoje, preservada no Museu Nacional Ferroviário no Entroncamento, continua a contar a sua história, a história dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste.
Texto: José Encarnação
Foto: Arquivo Torre do Tombo.

