Houve um tempo, ali por volta de 2010 — quando o mundo ainda não tinha acabado e o Grupo Carnavalesco do Barreiro era o rei da Avenida — em que ser folião no Barreiro era uma profissão a tempo inteiro. Milhares de cidadãos saíam à rua, munidos de matrafonas, purpurinas e uma resiliência invejável ao vento que sopra do Tejo. Os carros alegóricos eram engenharia de ponta: o “Robim dos Bosques” lá do sítio desfilava com mais pompa que o original de Nottingham.

A Evolução do Silêncio

Hoje, a realidade é ligeiramente… mais minimalista. Se em tempos o Barreiro competia com o Rio de Janeiro (numa escala muito própria, com mais frio e menos plumas), hoje competimos com um retiro espiritual de silêncio absoluto.

  • Antigamente: Milhares de pessoas, música ensurdecedora, escolas na rua e o comércio a vibrar.
  • Atualmente: O único “desfile” que se vê é o das folhas secas levadas pela nortada e um ou outro miúdo mascarado de Homem-Aranha a correr para o supermercado com os pais.

O Carnaval “Invisível”

Diz-se que o Carnaval do Barreiro agora é “minimalista” ou “concetual”. É um evento tão exclusivo que nem os próprios habitantes conseguem ver. Até o Carnaval das escolas, que era aquela dose anual de caos fofinho e trânsito parado, decidiu que a rua era demasiado “mainstream” e preferiu o conforto das quatro paredes.

Nota: Talvez a ideia seja poupar nos confettis para não sobrecarregar a varredura municipal, ou então estamos a treinar para ser a capital mundial da Quaresma antecipada.

É fascinante observar como uma cidade com tanta fibra operária e espírito de grupo conseguiu transformar o Entrudo num feriado digno de um domingo de chuva em novembro. Se o objetivo era tornar o Barreiro o lugar mais sossegado do país em plena Terça-feira de Carnaval, parabéns a todos os envolvidos: conseguiram.

texto e foto: José Encarnação