O Moinho de Maré de São Roque: Da Identidade Vernacular ao “Falso Património” de Betão

O Moinho de Maré de São Roque, historicamente conhecido como Moinho Pequeno, é um caso emblemático de como a gestão do território pode colidir com a preservação da memória histórica. Localizado na emblemática zona de Alburrica, no Barreiro, o que deveria ser um testemunho da arquitetura do século XVII é hoje um objeto de profunda controvérsia.

1. A Essência Perdida: O Moinho Original

Até à sua descaracterização, o moinho era um exemplar puríssimo de arquitetura vernacular agrícola. Com uma volumetria alongada e despojada, seguia os cânones do século XVII:

  • Materiais Tradicionais: Estrutura em madeira, telhado de duas águas em telha de canudo e paredes de alvenaria rebocadas e caiadas.
  • Mecânica Hidráulica: Funcionava num sistema misto, aproveitando tanto as marés do Tejo como as águas doces locais para acionar as suas três moendas. Era um edifício que “respirava” com o rio.

2. Cronologia de uma Identidade Interrompida

A história do moinho atravessou séculos de laboração ativa, desde os registos de arrendamento em 1652 até à produção de massas no final do século XIX. Em 2015, chegou a ser reconhecido como Conjunto de Interesse Municipal, um estatuto que deveria ter garantido a sua integridade física e histórica.

3. A “Morte” do Património: O Betão sobre a História

Infelizmente, o processo de intervenção moderna no Moinho Pequeno não seguiu os princípios da conservação e restauro. Em vez de se preservar a estrutura original, o moinho foi arrasado, dando lugar a uma construção contemporânea que ignora a traça histórica.

A Crítica Patrimonial: A construção atual, executada em betão, é vista por especialistas e pela comunidade como um “falso moinho”. Ao substituir os materiais e as técnicas seculares por uma réplica moderna e fria, o valor histórico e antropológico do edifício foi anulado.

Esta intervenção é frequentemente citada como um exemplo de “falsificação histórica”, onde a memória do lugar foi sacrificada em prol de uma estética moderna que não dialoga com o passado. Onde antes existia uma estrutura que contava a história do trabalho e da engenharia do Tejo, hoje existe um edifício que “não representa nem de longe” a alma do antigo moinho.


4. Resumo Comparativo

O Moinho Original (Séc. XVII)A Reconstrução Atual
MateriaisPedra, cal e madeiraBetão armado e materiais modernos
ValorHistórico, etnográfico e vernacularEstético/Contemporâneo (sem valor patrimonial real)
IntegraçãoOrgânica e funcional com o rioRéplica visual desligada da técnica original

Este desfecho serve de alerta para a importância de distinguir “reabilitação” de “reconstrução total”. O património de São Roque, como o conhecíamos, foi efetivamente perdido, restando apenas a caldeira e a memória dos que o conheceram de pé.

Texto José Encarnação,

foto do arquivo restaurada pela IA,