Situada no tecido histórico do Barreiro, a habitação na Rua Marquês de Pombal não é apenas uma residência; é um testemunho da transição estética do início do século XX e um elemento vital para a compreensão da identidade urbana da cidade. Integrada no Centro Histórico, a sua proximidade com a orla ribeirinha do Tejo confere-lhe um enquadramento privilegiado, onde a arquitetura dialoga diretamente com a memória operária e burguesa da região.
Arquitetura e Morfologia
De tipologia unifamiliar e independente, o edifício apresenta uma planta quadrangular de dois pisos, caracterizada por uma volumetria de linhas simplificadas e horizontais. A estrutura é composta por um corpo principal e um anexo nas traseiras, culminando num telhado de duas águas estrategicamente oculto por uma platibanda vernacular.
A fachada principal, voltada a sul, é um exercício de equilíbrio entre a funcionalidade modernista e a exuberância decorativa da época. Destacam-se:
- A Simetria dos Vãos: Janelas de peito no piso inferior e janelas superiores molduradas em cantaria retilínea, com exceção da janela de sacada central, cujo arco rebaixado e pedra de fecho trabalhada marcam o eixo de importância da fachada.
- O Ferro Forjado: Presente nos parapeitos, no varandim “de barriga” e no gradeamento do pátio frontal, o tratamento decorativo oitocentista do ferro confere uma elegância clássica ao conjunto.
O Estilo “Arte Nova” e a Azulejaria
O verdadeiro valor distintivo desta casa reside no seu vocabulário Arte Nova. A zona superior da frontaria é enriquecida por um friso de azulejos policromos com motivos vegetalistas (flores e ramagens) de repetição.
O elemento de maior singularidade é a representação figurativa:
- O Busto Feminino: Um frontão central em arco ostenta uma figura feminina alegórica, tema recorrente no estilo Art Nouveau.
- O Registo Azulejar: Sob a varanda, um registo rectangular repete o motivo do busto rodeado por flores-de-lis, apresentando uma execução técnica de traço “naif”, que demonstra a apropriação popular e artesanal desta estética cosmopolita.
Contexto Urbano e Preservação
Inserida numa rua onde coexistem outros exemplares de interesse arquitetónico — como a Casa do Fumeiro —, a residência mantém a tipologia típica do Barreiro, incluindo o pequeno quintal de traseiras (logradouro) que comunica com a avenida marginal.
A preservação deste imóvel é fundamental para manter a escala e a memória do Barreiro antigo. A sua presença recorda um tempo em que a habitação unifamiliar era desenhada com um cuidado artístico que transformava elementos funcionais (como os canos dos algerozes ou os cachorros de cantaria) em peças de ornamentação pública.
Ficha Técnica de Referência
- Localização: Rua Marquês de Pombal, Barreiro.
- Cronologia: Século XX (Novecentismo / Arte Nova).
- Tipologia: Arquitetura Civil Residencial.
- Características Principais: Fachadas rebocadas, azulejaria policroma, ferro forjado e platibanda decorada.
Fonte: Albertina Belo (2002) para o SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico. www.monumentos.gov.pt
texto e fotos José Encarnação



