A história do Barreiro moderno é indissociável do fumo das chaminés e do ritmo das fábricas. Se hoje associamos a cidade à CUF, a verdade é que o caminho da industrialização foi desbravado, em grande parte, pela cortiça. Um dos palcos principais desta revolução foi a Rua Miguel Pais, uma artéria que serviu de ponte entre o Tejo e o progresso económico do século XIX.
O Despertar (1865-1890)
Embora as regiões do Alentejo e Algarve tenham tido a primazia no setor, o Barreiro afirmou-se cedo como um polo estratégico. O primeiro registo oficial de um fabrico de rolhas de cortiça na vila remonta a 1865, citado por Augusto Gomes Araújo. Este foi o ponto de partida para uma expansão que não pararia até ao final do século.
Em 1890, a indústria já estava consolidada com duas unidades de referência:
A Garrelon & Companhia, situada na emblemática Rua Miguel Pais, propriedade de um industrial francês.
A fábrica de João Reynolds, localizada na zona das Lezírias/Quinta Braamcamp. Juntas, estas unidades empregavam cerca de 68 operários, um número significativo para a época.
A Expansão e o Nó Ferroviário
O final do século XIX trouxe uma explosão de novas unidades. Segundo o historiador Armando da Silva Pais, in “O Barreiro contemporâneo: A grande e progressiva vila industrial” o Barreiro viu nascer nomes que se tornariam pilares da economia local:
A Companhia de Cortiças de Portugal (Recosta).
O. Herold & Cª.
Bensaúde & Cª, onde mais tarde se instalariam as primeiras unidades da CUF, aproveitando a proximidade ao porto e ao ramal ferroviário industrial — o mais antigo do país, hoje desmantelado, mas que foi vital para o escoamento da cortiça.
A fábrica Dundas & Cª, situada junto ao Largo das Obras.
O Apogeu e o Legado Físico
Na transição para a década de 40, a supremacia industrial pertencia à I. Granadeiro, S.A.R.L., considerada na altura a fábrica mais bem equipada da região. Curiosamente, é neste local que hoje os barreirenses passeiam: o atual Parque da Cidade.
Embora as máquinas se tenham calado, a Rua Miguel Pais e as zonas envolventes guardam “cicatrizes” desta era de ouro. No Parque da Cidade, podemos ainda contemplar dois testemunhos raros:
O Edifício Américo Marinho, que serviu de refeitório aos operários da I. Granadeiro.
A alta chaminé de tijolo, que continua a rasgar o céu do Barreiro como um monumento à resiliência e ao trabalho de gerações de corticeiros.
Texto: José Encarnação
Fotos de arquivo, (Lisboa) duas coloridas pelo IA.





