As ruas do Barreiro de outros tempos, marcadas pelo pulsar das fábricas e pelo vaivém dos operários, guardavam nas suas esquinas um ecossistema muito próprio: o do comércio local, feito de proximidade, cheiros intensos e balcões de madeira desgastada pelo tempo. No coração desta cidade operária, a vida das famílias dependia da dedicação de mulheres que geriam verdadeiros microcosmos de sobrevivência e conveniência.
Aqui fica um retrato cruzado dessas duas lojas que marcaram os anos 70 e 80 no Barreiro.
A Loja da Sra. Ondina: O Sagrado, o Profano e a Lixívia
Entrar na loja da Sra. Ondina era fazer uma viagem ao impossível. Naquela penumbra iluminada por uma lâmpada fluorescente que insistia em zumbir, o pragmatismo e a devoção conviviam na mais perfeita harmonia. A Sra. Ondina, mulher de olhar atento, orgulhava-se de ter resposta para qualquer maleita da alma ou da casa.
“Se a Sra. Ondina não tem, é porque não existe” — dizia-se no bairro.
Numa prateleira, as imagens de gesso da Nossa Senhora de Fátima, com os seus mantos azuis e reluzentes, olhavam benignamente para o chão de cimento. Logo abaixo, quase em jeito de guarda de honra, alinhavam-se as garrafas de plástico amarelo da lixívia, o detergente azul em pó e as vassouras de piaçaba. Ali vendia-se o milagre para a salvação espiritual e o produto químico para a lida da casa. Se faltasse um pavio para a lamparina ou um garrafão de petróleo para o aquecedor no inverno, a Sra. Ondina sabia exatamente em que canto da loja os encontrar.
A Outra Mercearia: Do Bacalhau aos Colants

A poucas ruas de distância, outra mulher dominava as artes do abastecimento familiar numa mercearia típica dos anos 70 e 80. Ali, o ar era denso, impregnado por um perfume inconfundível: a mistura do salgado do bacalhau seco, que repousava empilhado num canto, com o aroma doce da farinha Cerelac e do café moído na hora.
Atrás do balcão de vidro, a proprietária aviava a clientela com uma destreza cirúrgica. Com a mesma faca pesada com que cortava uma posta de bacalhau para o jantar de um cliente, logo a seguir pesava, num cartucho de papel pardo, as gramas exatas de farinha para a papa do bebé.
Mas a verdadeira magia daquela mercearia estava na sua capacidade de adaptação aos tempos modernos que o pós-25 de Abril trazia. Num expositor, ao lado das caixas de fósforos e das pastilhas Gorila, surgiam os colants de nylon para as senhoras que trabalhavam nos escritórios ou que queriam ir bem-postas à missa de Domingo. Era o luxo possível e a modernidade a entrar pela porta da mercearia do bairro.
O Livro do Fiado e a Alma do Bairro
Mais do que o comércio, estas duas lojas eram os amortecedores sociais do Barreiro. Ali não havia caixas automáticas nem cartões de crédito, mas havia algo mais valioso: a confiança.
- O “Livro do Fiado”: Tanto a Sra. Ondina como a vizinha merceeira guardavam um caderno de capa preta onde, com a ponta do lápis humedecida na língua, apontavam as contas das famílias para serem pagas no final do mês, quando o ordenado da CUF ou dos Caminhos de Ferro caísse na conta.
- O Ponto de Encontro: Ir “fazer um recado” era pretexto para saber da saúde dos vizinhos, comentar a política local ou discutir o preço do pão.
Hoje, esses balcões de madeira e cheiros a lixívia e bacalhau foram substituídos pelas luzes frias dos supermercados. No entanto, na memória coletiva do Barreiro, a Sra. Ondina e a sua vizinha merceeira continuam vivas, como símbolos de um tempo em que as lojas tinham nome de gente e a vida se aviava ao quilo, com uma palavra de conforto a acompanhar.
Texto: José Encarnação e foto da Dona Ondina
Foto da merceeira: João Fusto

