Hoje, no Dia Nacional do Azulejo, celebramos não apenas a estética da nossa cerâmica, mas a memória gravada nas paredes das nossas cidades. No Barreiro, esta data serve como um lembrete agridoce: temos um tesouro nas mãos, mas ele está a escorregar-nos por entre os dedos.
O concelho do Barreiro detém um património azulejar de valor histórico e artístico inestimável. Das fachadas oitocentistas aos padrões geométricos que contam a história da nossa expansão urbana, o azulejo é o ADN visual do Barreiro Velho e do Lavradio Antigo. No entanto, a celebração deste dia é ensombrada por uma realidade preocupante: a descaracterização sistemática do nosso legado.
O Diagnóstico: Onde estamos a falhar?
- A Pressão Imobiliária: Nas zonas históricas, novos projetos de construção avançam frequentemente sem a devida sensibilidade. O “novo” não precisa de apagar o “velho”, mas a falta de integração tem resultado na perda irreversível de painéis raros.
- Permissividade Arquitetónica: A ausência de regras rigorosas permite que estilos dissonantes fragmentem a identidade visual das ruas.
- A Insuficiência do “Catálogo”: Organizar exposições e publicar livros é fundamental para a educação, mas um catálogo de azulejos que já não existem na rua é, na verdade, um obituário do património.
Do Discurso à Ação: O que é preciso mudar?
A pergunta permanece atual: será que expor é proteger? A resposta curta é não. Para que o Dia do Azulejo no Barreiro não seja apenas uma data de nostalgia, são necessárias medidas concretas:
- Fiscalização e Inventário Ativo: É necessário um levantamento exaustivo e atualizado que impeça a demolição de fachadas sem uma avaliação técnica prévia da viabilidade de restauro ou remoção salvaguardada.
- Incentivos à Reabilitação: Apoiar os proprietários privados na conservação dos azulejos originais, tornando o restauro uma opção economicamente viável face à substituição.
- Planeamento Urbano com Identidade: A aprovação de novos projetos deve estar condicionada à harmonia com o tecido histórico envolvente.
Um Compromisso de Todos
A preservação do património azulejar do Barreiro não é uma tarefa exclusiva da autarquia, embora esta detenha a maior responsabilidade legislativa. É um compromisso tripartido:
- A Autarquia deve legislar e proteger.
- Os Proprietários devem valorizar o que possuem.
- A Comunidade deve vigiar e denunciar o abandono.
Neste Dia do Azulejo, que o olhar se erga para as fachadas que ainda resistem. Que não deixemos que este tesouro se torne apenas uma fotografia num catálogo de museu, mas que continue a ser a pele viva das nossas ruas. Preservar o azulejo é, acima de tudo, preservar a identidade do Barreiro.
Texto e fotos José Encarnação









