O original núcleo do estuário e barra do Tejo (Aldeia Ribeirinha), desde o início do séc. XX desenvolvido progressivamente para a vila operária do Barreiro, predominantemente industrial e ferroviária, tornou-se pela sua natureza de gente modesta e trabalhadora um centro reivindicativo das condições laborais e de luta pelos direitos e liberdades sociais.
Daí ter sido desde muito cedo “um alvo a abater” pelas forças opressivas dos regimes ditatoriais do nosso País, em especial o regime salazarista, tendo em pleno séc. XX como “braço armado” aqui instalado um fortíssimo e permanente contingente militarizado da GNR de ação dissuasora omnipresente e violentamente interventiva; também uma “força sombra” de olhos e ouvidos de espionagem disseminados e infiltrados por todos os cantos da sociedade, como fonte de informação dos esbirros de outro “braço executor” de múltiplos e numerosos tentáculos, cruelmente ativa e virulenta, da criminosa e tristemente célebre PIDE.
Muitas centenas de Operários e Trabalhadores Barreirenses (em especial da indústria fabril, ferroviária, corticeira – CUF, Caminhos de Ferro, Braamcamp, etc.) foram durante anos perseguidos, aprisionados e torturados por motivo dos seus ideais de liberdade e reivindicações de melhores e mais humanas condições de trabalho e de vida, forçando muitos deles a passarem à clandestinidade ou a fugirem do País já depois de algumas detenções e prisões.
Durante várias décadas, a atual zona antiga da vila, hoje Cidade do Barreiro, foi o berço desta elite de lutadores, destacando-se como centro de ação a área do “Largo Casal” e como entidade de “influência e cobertura” a já há muito centenária Sociedade de Instrução e Recreio Barreirense – SIRB/Os Penicheiros, situada no referido largo, que a par da sua real atividade de instrução e recreio era usada para dissimular os então ilícitos movimentos de luta popular, tais como pequenas reuniões, transmissão de informações e cultura revolucionária, evolução das ideias sindicais e de luta de classes, entre outras.
Ainda até recentemente, nesta “Casa Mãe, Os Penicheiros” de cultura e recreio, como teatro de historial de pertinaz luta clandestina pela liberdade, os sobreviventes dessas gerações de lutadores se reuniam anualmente para confraternizar e recordar esses difíceis mas gloriosos tempos de sacrifício e de luta que, como contribuição na mais ampla e generalizada luta nacional antifascista, possibilitaram e concretizaram o nosso glorioso “25 DE ABRIL”, desde sempre celebrado e agora já com muitas dezenas de anos de consolidação.
Texto e foto de Amadeu Singens

