Barreiro 2028: De “Manhattan do Tejo” a Capital Nacional da Ginjinha e do Pimba

Senhores e senhoras, preparem os corações (e os fígados), porque o Barreiro apontou a agulha ao topo do firmamento cultural. Sim, é verdade: a nossa querida margem sul quer ser Capital Nacional da Cultura em 2028. E quem ousar duvidar desta candidatura claramente não está a conseguir alcançar a genialidade da estratégia geopolítico-cultural da nossa autarquia.

Dizem os céticos — essa gente amargurada que insiste em lembrar-se do passado — que a cultura na cidade foi friamente assassinada. Falam, com uma lágrima no olho, do Mês do Teatro, dos festivais de música com identidade, das mostras de fotografia, dos encontros de dança e da arte urbana que dava cor às paredes cinzentas do nosso glorioso passado industrial.

Mas vamos ser honestos: Teatro? Dança? Fotografia? Isso é tão século XX. Exige pensar, exige contemplação, exige… orçamento. O Barreiro moderno é vanguardista e decidiu fazer uma limpeza conceptual. Para quê insistir em palcos e exposições quando podemos atingir o nirvana da erudição de uma forma muito mais… líquida e popular?

A Revolução Pedagógica: Da Educação ao Copo de Três

A prova viva desta evolução meteórica é o destino que se deu à velhinha Feira Pedagógica. Convenhamos, uma feira pedagógica era algo terrivelmente aborrecido. Miúdos a aprender coisas, escolas envolvidas, projetos educativos… Uma chatice pegada. Felizmente, a organização percebeu que a verdadeira pedagogia não se faz com livros ou ateliers artísticos. Faz-se com tradição destilada.

Foi assim que mandámos a pedagogia “dar uma volta” e a substituímos, com pompa e circunstância, pela Feira da Jinga.

Nota de Alta Cultura: Nada grita mais “Capital Nacional da Cultura 2028” do que uma bela ginjinha logo pela manhã para abrir as pestanas e inspirar a alma artística do cidadão barreirense. É estimulação sensorial pura.

Se o júri da candidatura vier cá avaliar o nosso património imaterial, escusa de ir a museus (que também não há muitos para ver). Levamo-los diretos à Feira da Jinga. Se eles beberem as jotas suficientes, garantimos o título num piscar de olhos, até porque a realidade fica muito mais bonita e focada com 23% de teor alcoólico.

A Nova Banda Sonora Barreirense

E no que toca à música, a sofisticação continua a subir de tom. Esqueçam o jazz, o rock alternativo ou as filarmónicas. O Barreiro abraçou a corrente artística que realmente move as massas e eleva o espírito: a música pimba.

  • Antes: Debates estéreis sobre a decadência industrial e o futuro da arte contemporânea.
  • Agora: Coreografias sincronizadas ao som de duplos sentidos sobre culinária, bichinhos de estimação e amor de feira.

É uma escolha democrática. O pimba une o povo, não discrimina ninguém e tem uma vantagem extraordinária: ao fim da terceira música (e da quinta ginjinha), toda a gente acha que sabe cantar e dançar. Se isso não é promover a participação comunitária na cultura, então o que será?

Rumo à Vitória!

Por isso, Barreirenses, ergamos os nossos copos de chocolate cheios de jinga e celebremos. Se o plano era matar a cultura tradicional para fazer nascer uma fénix de purpurina, pimba e hálito a licor, o objetivo está mais do que cumprido.

Que venha 2028. Se não ganharmos o título de Capital da Cultura, ganhamos de certeza o prémio de melhor ressaca do distrito de Setúbal. E viva o Barreiro!

Texto e fotos: José Encarnação