Memórias do Barreiro Velho: A Singularidade de Rosa Americana

Há figuras que não precisam de títulos académicos nem de cargos públicos para se tornarem imortais; basta-lhes a calçada da sua rua, o eco da sua voz e a cumplicidade com a comunidade. No coração do Barreiro Velho, especificamente na icónica Rua Aguiar — onde habitava numa casota humilde, quase à entrada do Largo das Obras —, essa imortalidade popular pertenceu à Rosa Americana.

Capturada para sempre na memória coletiva, e eternizada na clássica fotografia a preto e branco onde surge rodeada pelos jovens da sua terra sob o número 55, a Rosa personificava a essência vibrante e castiça das gentes do Barreiro de outrora.

Quem cresceu naquelas ruas recorda-a, com um sorriso nostálgico, na sua silhueta humilde e pobremente vestida, a vaguear pelos bairros que conhecia como ninguém. Para a miudagem e até para os adultos da zona, ela era um misto de mistério, diversão e provocação inocente. Era comum cruzarem-se com ela e lançarem-lhe algumas frases em inglês, apenas para despertar o seu temperamento inflamado e bairrista. O grande troféu de quem a espicaçava era a sua resposta pronta: com os dedos em riste a fazer o sinal da vitória, soltava com vigor aquele anglicismo perfeitamente aportuguesado que se tornou a sua imagem de marca: “Chétafóriú!” (shut up for you). Era o seu grito de revolta, a sua assinatura verbal e o sinal sonoro que animava os finais de tarde no bairro.

A forte ligação aos símbolos norte-americanos não ficava apenas pela linguagem e pelos gestos. Quem passava pela sua humilde habitação na Rua Aguiar conseguia vislumbrar os vidros da janela orgulhosamente decorados com a bandeira dos Estados Unidos e outros motivos americanos. Seria daí, muito provavelmente, que nascia o apelido que o povo, com a sua habitual veia criativa, decidiu juntar ao seu nome de batismo.

Mas a Rosa tinha também um lado de profunda compaixão e ligação com a envolvência urbana e com os animais da zona. Ficou célebre a imagem desta mulher a caminhar em direção ao parque, atraindo atrás de si uma autêntica legião de gatos da comunidade. O segredo do seu magnetismo felino vinha embrulhado em folhas de jornal: as sobras e a morraça que recolhia propositadamente no antigo Matadouro local. Num Barreiro profundamente operário e solidário, a Rosa cuidava dos seus à sua maneira, dividindo o muito pouco que tinha com os animais abandonados.

Recordar a Rosa Americana é viajar a um Barreiro Velho onde todos se conheciam pelo nome ou pela alcunha, onde as portas das casas se abriam para a rua e onde figuras genuínas e profundamente humanas moldavam a identidade de uma terra. Ela não era apenas uma vizinha singular; era uma personagem viva da história social barreirense, uma memória feliz que continua a fazer sorrir quem, na infância ou na idade adulta, teve o privilégio de partilhar a calçada com ela.

texto: José Encarnação

foto Arquivo: Ilídio Costa