O Milagre da Privatização: Como o Teu Lixo Ficou Quatro Vezes Mais Valioso (Para os Outros)

Todos os meses, operamos um pequeno milagre doméstico: pomos o saco do lixo no contentor, abrimos a torneira e fingimos que o dinheiro não nos está a fugir da conta. Afinal, pagar a fatura da água e dos resíduos tornou-se um ato de fé. É como a chuva ou os discursos políticos — acontece e pronto.

Mas lembra-se de quando nos venderam aquela belíssima história de embalar, ali por 2015, de que privatizar a gestão do lixo ia “trazer eficiência” e “aliviar o bolso do contribuinte”? Pois bem, 11 anos depois da venda da EGF (leia-se, hoje, AMARSUL nas mãos da Mota-Engil/SUMA), os resultados são, de facto, de bradar aos céus. A eficiência pode estar tímida, mas os preços ganharam asas.

Adivinhe quanto custava enfiar uma tonelada de lixo num aterro em 2014? Uns modestos 20 euritos. Hoje? A fasquia já vai nos 77,03€. Quase quadruplicou! Mas a festa da contabilidade não brilha sozinha: junte-lhe a Taxa de Gestão de Resíduos, que saltou para os 40€ este ano (e promete subir até aos 60€ em 2030, porque a inflação do lixo é uma coisa séria). Feitas as contas, cada tonelada de resíduos já ultrapassa os 117€ antes de o IVA sequer pedir licença para entrar.

Municípios como o Seixal — e os vizinhos da Margem Sul — enterram agora mais de 21 milhões de euros por ano só para gerir águas sujas e sacos de plástico. E quem é que paga esta fatura galáctica? Spoiler: não é o Pai Natal. Por imposição legal e a bem dos fundos europeus, este “sucesso” privatizado tem de ser carinhosamente repassado para a carteira das famílias.

Portanto, da próxima vez que olhar para a sua fatura da água e sentir uma ligeira palpitação cardíaca, não culpe o aquecimento global nem o banho demorado do miúdo. O mistério resolve-se com matemática simples. Afinal, prometeram-nos gestão privada a preço de chuva; entregaram-nos lixo a preço de ouro.

texto José Encarnção