Há  Sempre uma Primeira Vez para Pensar na Cultura!

A Associação Barreiro Património Memória Futuro/ABPMF manifesta a sua satisfação ao verificar que a luta que travou, durante os últimos dez anos, para impor o património cultural e industrial material e imaterial como um fator fundamental do desenvolvimento global do Concelho do Barreiro deu, finalmente, alguns frutos positivos.

É certo que as preocupações sempre manifestadas não desapareceram, especialmente porque não é possível esquecer a destruição/crime, segundo a legislação existente, do Moinho Pequeno e do Moinho Grande, elementos essenciais na rede do património cultural material do Concelho. Preocupações que aumentaram com as notícias que nos chegam de diferentes meios e formas quanto ao futuro da Estação Ferro-Fluvial “ Barreiro-Mar” e de todo o património ferroviário, inserido no Procedimento de Classificação de Património Nacional,  publicado no Diário da Républica nº 30, 2ªserie, de 12 de Fevereiro de 2018.

A Estação  continua ao abandono, em degradação contínua, provavelmente para justificar a sua transformação em hotel, restaurantes e cafés, em lugar de um espaço cultural que crie no Barreiro uma nova centralidade na Área Metropolitana valorizadora da cultura industrial nas suas componentes de trabalho, luta e lazer, bem como da multiculturalidade que lhe está ligada, o que, desde que bem pensado, deve contribuir também para o desenvolvimento económico do Barreiro, numa aposta no turismo cultural e nas indústrias criativas.

Todos estes aspetos são causa da inquietação que persiste e se agrava sempre que surgem intenções não fundamentadas e incongruentes de reutilização de espaços e estruturas de grande valor patrimonial e ou ambiental. Como o da Caldeira do Moinho Grande, da Serração ou do Burnay. Projeto onde se pretendia criar uma praia fluvial com a finalidade de rentabilizar o espaço que rodeia a Quinta Braamcamp, sem se deterem no facto de a caldeira ser zona de sapal, fundamental como contribuição do Concelho no combate às alterações climáticas. E, desta forma, parece manter-se o objetivo de alienar a Quinta Braamcamp, um território que deveria pertencer por inteiro à população do Barreiro, num “esplendoroso” negócio de imobiliário através da construção em altura de cerca de 180 fogos; ou continuar a apagar as características históricas do Barreiro Velho, como a perda do valioso património azulejar e da memória ligada à pesca e à construção naval. Oxalá não estejamos na presença de mais um esplendoroso especulativo imobiliário.

No entanto, a ABPMF considera que tal como foi possível gastar mais de 5 milhões de euros no arranjo de mais ou menos 500 metros na rua Miguel Bombarda, se conseguirão obter, igualmente, meios financeiros para a concretização da recuperação patrimonial dos elementos referidos, bem como de outros bens do rico património cultural barreirense. Trata-se de uma questão de opção.

Para além destes exemplos globalmente preocupantes, verifica-se que não se manifesta qualquer referência significativa aos aspetos que, na realidade, constituem a identidade operária barreirense. Estão neste caso a extraordinária “gesta” da luta do operariado e de parte da população contra o fascismo, marcada pela perseguição, morte e prisão de centenas dos seus protagonistas; a existência do Caminho-de-Ferro como fator decisivo para todo o processo de industrialização que se lhe seguiu; o quotidiano de trabalho nas fábricas e alguma referência ao significado libertador do 25 de Abril.

A  ABPMF não deixará, por tudo isto, de continuar a sua luta pelo reconhecimento e defesa integral do valor do património cultural/industrial material e imaterial, bem como do património ambiental em benefício do desenvolvimento cultural e global do Concelho, partindo da convicção de que sem o conhecimento do passado não é possível a construção democrática e inovadora do futuro. 

27/07/2026

Associação Barreiro Património Memória Futuro