A Estação Sul e Sueste (também conhecida como Gare Marítima do Barreiro ou Terminal Ferroviário do Barreiro) é uma das principais obras de referência da engenharia civil e ferroviária em Portugal. Inaugurada a 4 de outubro de 1884, a sua construção resultou do projeto visionário do Engenheiro Miguel Pais, técnico de formação militar ao serviço da Companhia dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste.

Edificada no próprio leito do Rio Tejo numa obra de elevada complexidade hidráulica e assente em terrenos conquistados ao rio, tornou-se na primeira estação multimodal do País e a primeira construída à beira do Tejo, desempenhando um papel estratégico fundamental na expansão da rede ferroviária para o Sul e na sua articulação com o Norte.

1. Contexto Histórico e Impacto Socioeconómico

Antes da construção da Gare Marítima, o transbordo de passageiros no Barreiro era precário, exigindo a travessia a pé pela praia, a partir do Mexilhoeiro até à antiga estação de embarque (onde mais tarde se fixaram as Oficinas Gerais do Barreiro).

Com a edificação da nova estação, criaram-se as infraestruturas necessárias para transformar a vila ribeirinha na grande plataforma giratória de produtos e passageiros vindos do Alentejo e, a partir de 1889, do Algarve (com a chegada da Linha do Sul a Faro). Esta centralidade impulsionou a prosperidade e o crescimento urbano da região.

2. Declínio, Encerramento e Abandono

A inauguração do novo Terminal Rodo-Ferro-Fluvial, em 1995, restringiu a atividade da antiga Estação Sul e Sueste à vertente ferroviária. Paralelamente, a reconfiguração das acessibilidades regionais e a transferência do nó ferroviário para o Pinhal Novo ditaram a perda progressiva do papel histórico do Barreiro na ligação entre o Norte e o Sul do país. Mais tarde, com o desmantelamento do depósito de tração em 2004, a estação sofreu um novo corte nos seus serviços, ficando a sua operação circunscrita às ligações suburbanas para Praias do Sado.

Posteriormente, a construção do novo apeadeiro do Barreiro, erguido ao lado da histórica Gare Marítima projetada pelo engenheiro Miguel Pais, ditou o fim da sua utilização. O processo culminou no encerramento definitivo da estação em dezembro de 2008 e no levantamento dos carris em janeiro de 2009. Desde então, o antigo complexo ficou entregue à sua sorte, encontrando-se atualmente num avançado estado de degradação e ruína, sob a responsabilidade da Infraestruturas de Portugal (IP).

3. Cronologia de Obras e Intervenções Históricas (1928–1946)

Ao longo das décadas de pleno funcionamento, o complexo sofreu diversas intervenções para acompanhar o aumento do tráfego e garantir a segurança das infraestruturas:

  • 1928: Remodelação das instalações da bilheteira.
  • 1929: Instalação de estruturas defensivas em madeira no cais para evitar o choque de embarcações contra a ponte de descarga.
  • 1930: Beneficiações gerais no edifício e reparação das balaustradas e gradeamentos da muralha.
  • 1931: Construção de vedação em cimento armado no cais de embarque de passageiros.
  • 1934: Abertura da Avenida de Sapadores, melhorando significativamente o acesso rodoviário à estação.
  • 1940: Ampliação das instalações de apoio ao serviço fluvial e construção de um telheiro no lado Sul.
  • 1941: Obras de consolidação e reparação na muralha Norte.
  • 1943: Trabalhos gerais de ampliação da estação.
  • 1945–1946: Construção de uma escada em pedra na rampa da muralha de atracação e aplicação de corrimãos de ferro para facilitar o acesso dos passageiros aos barcos.

4. Caracterização Arquitetônica e Estilística

Do ponto de vista estilístico, o edifício enquadra-se na arquitetura civil tardo-romântica e revivalista neo-manuelina, integrando também subtis influências do estilo colonial inglês nos seus elementos decorativos.

O projeto reflete uma fusão harmoniosa entre a vertente artística e a técnica do ferro típica do século XIX. A fachada apresenta uma composição cenográfica, articulada por arcadas e altas torres que evocam a imponência do piso térreo da fachada Sul do Mosteiro dos Jerónimos.

5. Análise Estrutural e Descrição do Edifício

Estruturalmente, o complexo organiza-se em duas componentes principais unidas pela cobertura da gare:

A. Frontispício (Fachada Este)

  • Morfologia: Planta longitudinal irregular pontuada por quatro torres poligonais (duas nos topos e duas embebidas ao centro do alçado), que dividem a fachada em três panos simétricos.
  • Elementos Decorativos: O pano central integra um portal ladeado por janelas de arcos quebrados e alteados, separados por contrafortes escalonados. A cobertura alterna entre superfícies planas e domos de abóbadas góticas nas torres.
  • Interior: Parede de pano liso revestida até um terço da altura por um alizar de azulejos brancos, complementado por uma moldura central retangular. Os vãos das janelas estão emoldurados por arcadas interiores.

B. Gare Ferroviária e Cais de Embarque (Fachada Oeste)

  • Dimensões e Layout: Gare de planta longitudinal escalonada com cerca de 80 metros de comprimento, albergando um cais com duas vias e uma plataforma de passageiros com 4 metros de largura (perfazendo 15,50 metros de largura total).
  • Fachadas Norte e Sul: Delimitadas por cunhais apilastrados de dois registos. O piso inferior apresenta um portal central e janelas estreitas de grande verticalidade, enquanto o piso superior é coroado por uma rosácea sob um frontão de arcos e segmentos.
  • Esquadria e Ferro: As portas e janelas são em arco pleno com caixilharia de duas folhas e bandeiras decoradas com laçaria em ferro. A cobertura da gare é em estrutura metálica aparente (composta por asnas, varões e tubos de metal), revestida a chapa de zinco e claraboias envidraçadas.

C. Espaço Interior

O interior desenvolve-se em vários pisos:

  • Piso Térreo: Vestíbulo principal, sala do rei, salas de espera para passageiros, gabinetes administrativos, escritórios e salas de tráfego.
  • Pisos Superiores: Quartos e alojamento para pessoal graduado.
  • Circulação e Acabamentos: A articulação entre os diferentes níveis faz-se por escadas de caracol, escadarias de poço aberto e lanços opostos. Os pavimentos na sala do rei mármore preto e branco, os restantes combinam tijolo-mosaico e madeira, enquanto os tetos usam revestimento em madeira.

6. Cais Fluvial e Engenharia Hidráulica

Fronteiro à estação desenvolve-se um amplo cais fluvial em cantaria, erguido sobre fundações hidráulicas e muralhas de suporte preparadas para assentamento em lodos profundos.

Esta estrutura estende-se por 448 metros no lado Sul, 70 metros de testa e 340 metros no lado Norte, apresentando uma altura média de 4,5 metros. Toda a cortina do cais é guarnecida por uma balaustrada de ferro, que forma uma varanda sobre o rio Tejo. Na área exterior destaca-se ainda um cais de mercadorias coberto por chapa zincada.

Texto: José Encarnação e fotos

fotos antigas: arquivo barreiroweb.net

fontes: Revista Fundição da ABPMF, processo de classificação do patrimônio ferroviário do barreiro.