A história do movimento operário em Portugal não pode ser escrita sem mencionar o Barreiro, e a história do Barreiro ferroviário é indissociável de Miguel Correia. Militante anarco-sindicalista, estratega de greves e jornalista de combate, Correia foi um dos rostos mais visíveis da resistência proletária num dos períodos mais conturbados e vibrantes da história portuguesa: a Primeira República (1910-1926).
O Despertar de um Líder e a Fundação do «Sul e Sueste»
O ano de 1919 marca um ponto de viragem na organização dos trabalhadores ferroviários. A 7 de setembro desse ano, nascia o jornal «Sul e Sueste», órgão de divulgação do movimento sindical dos ferroviários destas linhas. Miguel Correia assumiu-se como o seu principal redator, utilizando a escrita como uma extensão da luta de classes.
A sua ascensão foi meteórica. No mesmo mês em que o jornal via a luz do dia, Correia tornava-se secretário-adjunto da Confederação Geral do Trabalho (CGT), a organização que substituía a União Operária Nacional e que abraçava a doutrina do sindicalismo revolucionário. Sob a sua influência, a luta no Barreiro deixou de ser meramente local para se tornar um epicentro da agitação laboral a nível nacional.
Os “Anos de Ouro” e a Resistência Ferroviária
Entre 1919 e 1920, o Barreiro viveu os seus “anos de ouro” da luta sindical. Miguel Correia não era apenas um ideólogo; era um organizador nato.
- A Greve de 1919: Uma paralisação de 40 dias que testou a resiliência dos operários por melhores salários.
- A Greve de 1920: Um dos episódios mais marcantes, com 70 dias de paralisação total dos serviços de passageiros e mercadorias, liderada pelo “comité” onde Correia era a figura central.
O anarco-sindicalismo defendido por Correia acreditava na ação direta e na independência do sindicato face aos partidos políticos, transformando a Associação de Classe num verdadeiro bastião de resistência contra a precariedade.
O Equívoco de 1926 e o Início do Fim
A trajetória de Miguel Correia é também marcada pela complexidade política que antecedeu a Ditadura Militar. Com um historial de quatro detenções pelas mãos do governo republicano, Correia — tal como outros setores da CGT — inicialmente não viu com total hostilidade o golpe de 28 de maio de 1926.
Acreditando que a queda da instável República Parlamentar poderia abrir espaço para as reivindicações operárias, chegou a negociar um compromisso com os revoltosos, garantindo a facilitação do transporte de tropas. Foi um erro estratégico que rapidamente se revelou fatal.
A natureza repressiva do novo regime não tardou a mostrar a sua face:
- Censura: O jornal «Sul e Sueste» foi imediatamente sujeito a censura prévia.
- Repressão: Em setembro de 1926, o homem que tanto lutara pela liberdade sindical era novamente preso.
- Degredo: Miguel Correia foi deportado para Cabo Verde e, mais tarde, para Lourenço Marques (Moçambique), silenciando uma das vozes mais potentes do sindicalismo português.
“A história de Miguel Correia é o reflexo de uma época em que o sonho de uma sociedade nova passava pelas oficinas, pelas linhas de ferro e pelas páginas de jornais feitos por operários para operários.”
Texto: José Encarnação
fontes: Armando Sousa Teixeira “Uma História de Trabalho Resistência e Luta” e
Motta, Fernando da (2008) Guia Documental do Sindicato dos Ferroviários, CMB.
Foto: Miguel Correia e família, estúdio Resendes.

