Notícia da primeira viagem do comboio a sul do Tejo entre o Barreiro e Bombel a 15 de Junho de 1858.

“Acabamos de assistir a uma festa nacional, a uma das festas que mais comprazem a nossa alma. Vimos de tomar parte na viagem experimental do caminho de ferro do sul, onde percorremos 50 quilómetros de via assente, e prontos á circulação.
Saudámos este brioso fasto da nossa história contemporânea, que mais nos aproxima da moderna civilização.
A festa foi digna do facto que comemorava. A companhia do caminho de ferro do sul convidou para assistir a este solene acto tudo quanto o podia melhor abrilhantar, e quanto nele podia tomar parte mais competentemente. O digno presidente do conselho de ministros, os ministros das obras publicas, guerra e fazenda honraram com a sua presença esta magnifica função. Além destes cavalheiros muitos outros tomaram parte no mencionado festejo, como os dignos pares do reino duque de Saldanha, e Márquez de Ficalho; os diretores gerais do ministério das obras publicas visconde da Luz e Joaquim Larcher; chefes superiores do mesmo ministério, como os srs. Ernesto de Faria, Louzada, Archer, Custodio Manuel Gomes, Camarate e Eugénio; muitos lentes do instituto industrial com o respetivo diretor geral á frente; vários deputados, cavalheiros de superior distinção pela sua inteligência e posição, jornalistas, etc. O que tudo reunido compunha um quadro resplandecente pelo seu brilho, e pelo lustre que dava ao que se ia solenizar.
Esta distinta comitiva tendo partido do arsenal de marinha abordo de um dos vapores da companhia do Tejo e Sado, chegou em frente do Barreiro perto do meio-dia, e desembarcando ali em escaleres que se achavam convenientemente colocados, nas proximidades da gare do caminho de ferro do sul, entrou nessa estação, a qual se achava não só brilhantemente armada, como o bom gosto havia igualmente presidido a essa decoração.
Passado um momento de descanso os convidados entraram nas carruagens, que em número de 7 os deviam conduzir ao Alto de Bombel, puxados pela locomotiva Barreiro, que garbosamente estava embandeirada e coberta de flores.
O comboio andando com uma pasmosa celeridade gastou perto de minuto e meio por quilometro até ao Poceirão, onde parou para receber agua.
Durante o transito as povoações do Barreiro, Lavradio, Alhos-Vedros e Moita colocadas nas margens do caminho saudavam com vivas entusiásticos aquele fecundo veículo de civilização.
Do Poceirão até ao Alto de Bombel o comboio percorreu a distância, que entre os mesmos pontos existe, sem o mais leve acidente.
Chegando ao termo da viagem apearam-se os convidados, e depois de descansarem um momento voltaram ao ponto da partida gastando 45 minutos em percorrer a distancia de 50 quilómetros, que tantos são os que do Alto de Bombel distam da estação do Barreiro.
Na estação principal serviu-se um magnifico banquete, feito sob a direção do sr. Ferrari, e em que a direção da companhia mostrou o seu primor em obsequiar com dignidade e delicadeza os seus convidados.
Durante o jantar fizeram-se vários brindes a SS. MM., á direção da companhia do caminho de ferro do sul, aos engenheiros que haviam feito aquele caminho os srs. Calheiros e Belchior, á administração presidida pelo sr. duque de Saldanha, e a outros cidadãos beneméritos deste país, terminando este festejo digno da maior consideração, a todos os respeitos, sem o menor dissabor.
Dissemos ontem no noticiário desta folha, e repetimo-lo hoje novamente, que aquela linha não deve findar no ponto em que está contratada; prossegui-la é mais do que uma necessidade, é um dever imperioso. Entroncar este caminho de ferro com a linha Espanhola é de tanto alcance, que ninguém ousará desconhecer a magnitude do cometimento e sem o qual não há ligação possível com a Europa.
Aos srs. ministros, a camara dos srs. deputados, ao país em geral, deixamos a apreciação dessa necessidade, que, se a quem a desconhecer, não serão de certo os que ainda conservarem algum amor pátrio, a uma centelha de entusiasmo pela terra de que são filhos.
Os caminhos de ferro são para Portugal a salvação publica fomenta-los, promove-los, fazer votos por eles, animar as empresas que os fizerem — é missão especial e imperiosa da imprensa periódica; é por isso que, soldados dessa milícia, não esqueceremos nunca esses grandiosos feitos, que hão de levar a todos os pontos do país riqueza, abundância e prosperidade.”

Vieira da Silva.

texto: extraído do Jornal a revolução de setembro do dia 16 de junho de 1858.