Em tempos já muito remotos, estando sentado junto dumas árvores um já idoso e desgastado homem, olhar desvanecido e sonhador mirando lá para longe, quando, por entre o sonante e descompassado gorjeio da diversa passarada local, pereceu-lhe ouvir por cima da sua cabeça uma maviosa voz de pássaro falando na sua língua:

– Homem, que fazes aí sentado quando há tanto para ver à tua volta!?

O homem, levantando a cabeça até avistar um pássaro pousado a meio da árvore mais perto de si e que o olhava algo interrogador e repreensivo, nem por isso muito surpreendido com a interpelação. Remoendo e pensando, tanto que já tinha visto e tanto ainda para ver! Este deve ser um sobrevivente do tempo em que os animais falavam, foi concluindo. – Espera aí ó pensador!… Os animais falam, sempre falaram, só que na sua própria fonia… – Resolveu então despachá-lo de imediato, respondendo-lhe:

– Estou cansado, vai à tua vida.

– Eu ajudo-te; sobe comigo! – Disse-lhe o pássaro.

Pássaro chato pensou o homem. Mas sem querer ser malcriado, até porque o pássaro era bonito e tinha algo de especial que cativava, respondeu-lhe: – Mesmo com a tua ajuda eu não consigo subir.

– Eu empresto-te as minhas asas, vais ver que consegues! – Insistia o pássaro. 

– Como é que eu poderia voar com as tuas asas, tão diferentes que nós somos!? – Retorquiu o homem.

– É uma questão de querer e de imaginação. Vamos, nega lá que nunca desejaste ter asas e voar por esses céus além! – Retornava o pássaro. 

– Bom, eu já vi muito deste nosso mundo mas admito que daí de cima haverá muito mais para ver; mas o meu tempo já passou. – Admitiu o homem em tom resignado.

– Conta-me tu o que já viste do alto desse teu céu. – Arrematou.

– O que de maravilhoso eu já vi quando voo lá pelas alturas é algo que tem de ser visto e não contado. Além disso os olhos de pássaro não vêm o mesmo que os teus olhos. Tens de ser tu a voar. – Esclareceu o pássaro.

– Não! Eu fico por aqui até que a noite me adormeça para sempre, pois eu já sonhei tudo o que tinha para sonhar. – Disse o homem em tom definitivo.

– Sabes uma coisa, homem medíocre!? – O pássaro começando a ficar zangado com tanta resignação e desprendimento.

– Eu que tenho assas e sei voar, mas sempre tenho invejado e admirado os homens pelas suas qualidades às quais não tenho acesso; o que agora estou vendo é um homem derrotado, que perdeu ambições, que perdeu a crença, que abdicou dos seus legítimos sonhos, que está negando a sua própria condição de Homem. Levanta-Te e sobe comigo, talvez consigas voar ou então morrer de facto numa queda de inapto! – Ordenou perentório o pássaro já impaciente e roufenho de voz.

O homem, ferido no seu orgulho, recorrendo a todas os resquícios da sua força interior, foi trepando esforçadamente pela árvore seguindo o pássaro que ia pulando e trinando por cima da sua cabeça incentivando-o a continuar, até que chegou ao pináculo da árvore, sem conseguir voar, mas subindo por si próprio até onde lhe foi possível; mais alta fosse a árvore e ele lá iria.

Enquanto o homem recuperava do esforço e se admirava do seu feito, o pássaro rodopiava à sua volta falando num trinado diferente, agora ininteligível, mas que lhe pareceu em tom mordaz, como se rindo de si, arrancando em seguida num veloz voo acrobático, desaparecendo direito ao sol poente, sem deixar rasto, como se nunca tivesse existido.

Então, empoleirado e agarrado com unhas e dentes no pino daquela árvore, alta e oscilante à suave brisa da tarde, que ele momentos antes se havia reconhecido como incapaz de subir, todo trémulo na incerteza de que a árvore entretanto se quebrasse ao seu peso, a sós consigo próprio e apenas com o infinito sobre si, o homem voltou a olhar o céu com os olhos e a vontade de quem quer e acredita que pode voar.

O homem, aquele homem, perante a imensidão do céu que o rodeava até ao infindável horizonte, tornou a ser o sonhador que sempre fora, a acreditar que o fim pode ser o princípio e que o céu, tal como o sonho, não tem limites. Sonhou que era pássaro, que mesmo não conseguindo voar podia subir mais alto e ver mais longe; tinha a sua árvore para trepar, que ainda tinha, pouco ou muito, o seu tempo para viver e o seu céu para desfrutar.

O pássaro, esse pássaro que voa na nossa mente, que por vezes nos fala ao ouvido como se de gente se tratasse, voa tanto mais alto quanto maior for a dimensão e a longevidade dos nossos sonhos, em especial quando na realidade, já em término de longa e espinhosa viagem, só esses nossos derradeiros e fantasiosos sonhos ainda nos mantêm agarrados à vida.

 Amadeu O. Singens, in Escritos Emancipados (foto do autor)